Uma história cabeluda

Por Adriana Brunstein

No apartamento que a gente morava tinha um pequeno cômodo improvisado que o proprietário anterior havia construído. Creio que ele usava como closet, mas pra gente, além de roupas, sapatos, caixas e mais caixas de objetos que guardamos porque temos a certeza de que um dia vamos precisar (ou seja, nunca!), aquele lugar de madeira escura com um espelhão era cenário de muitas das histórias que eu e minha irmã criávamos. Era como se pudéssemos, naquele imenso guarda-roupa, ter nossas próprias crônicas de Nárnia, com direito a leão e feiticeira. Aliás, o leão Aslan me fez chorar horrores na versão do desenho de 1979. Nunca me esqueci da cena dele todo frágil, sem juba e amarrado numa espécie de pedestal branco.

Em uma das prateleiras do quartinho, bem lá em cima e quase à prova de crianças, ficava a malinha azul de minha mãe. Dentro havia um secador cor de rosa pesadíssimo, uma touca daquelas bem bufantes e um tubo sanfonado para unir o bico do secador à touca. Era o kit perfeito para sermos abduzidas por extraterrestres e submetidas a experiências comandadas pelo líder com cabeça de lâmpada! Bem, um dia ele perdeu a cabeça, que rolou para baixo do gaveteiro, e tentar recuperá-la com uma vassoura não foi muito eficiente de nossa parte. O líder virou cacos e os cacos se recusaram a se render sem a intervenção de minha mãe. Também conhecida como bronca.

De volta ao planeta Terra, inventamos outra história: inaugurar um salão de cabeleireiros no quartinho. Colocamos o banquinho do piano em frente ao espelho e minha irmã ganhou o papel de cabeleireira numa disputa de joquempô, aquela do pedra, papel e tesoura. Ela não era lá muito jeitosa na época, então eu pedi só uma escova simples. Ela preparou todo o arsenal, com todas as escovas e pentes de minha mãe e o secador cor de rosa pesadíssimo. E, mesmo com nosso salão funcionando tarde da noite, com minha mãe já dormindo, nada poderia dar errado, né? Não. Não é.

Entre as escovas, havia uma magricela, com cerdas duríssimas e cara invocada de inimiga número 1 de cabelos cacheados como o meu. Minha irmã não teve dúvidas, foi essa mesma que escolheu para exterminar todo e qualquer vestígio enrolado de minha cabeça. Tem aquele livro chamado “100 escovadas antes de ir para a cama”, que se não me engano foi um sucesso de vendas. Já eu e minha irmã escrevemos o “uma escovada antes de ir para a cama da mãe”. A escova do mal se entranhou de um jeito em meu cabelo que nem todas as tesouras de todos os joquempôs disputados no mundo tirariam ela dali.

A solução? Nosso finado líder alienígena proporia em forma de um simples enigma: Três letras e um til. Me aproximar de minha mãe adormecida com um cabo saindo de minha cabeça e chorando mais que naquela vez do Aslan foi uma péssima ideia. Ela levou um susto tão grande que até hoje tem que fazer visitas frequentes ao cardiologista! Quanto ao que aconteceu com meu cabelo, só não ficou pior que a terrível mecha que eu mesma fiz com água oxigenada 370 volumes quando entrei na adolescência.

Não sei se aquele quartinho ainda existe, é bem provável que não. Mas Nárnia é um reino eterno, onde a magia sempre acontece e os principais personagens são crianças. Às vezes com um buracão imenso no cabelo, mas crianças.

 

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