Sra. Magoo é a mãe!

Por Patricia Travassos

Nessa semana consultei um oftalmologista para quem pedi, encarecidamente, a receita de um óculos que me devolva a nitidez e o foco. Mas, aqui entre nós, o que eu queria mesmo era encontrar uma ótica que vendesse lentes como as da minha pupila. Não vou nem dizer que a Isabela é minha menina dos olhos para não abusar de expressões óbvias demais quando o assunto é o que ando enxergando ultimamente.

Os 40 anos são mesmo implacáveis. Eu, que sempre tive uma visão perfeita, duvidava que a tal presbiopia chegasse pra mim também. Demorou um bocadinho mais, mas chegou.  Começou assim, embaralhando os ingredientes dos cardápios da cidade. Depois, me desanimando a pegar um livro antes de dormir. A cada dia, leio o jornal com a expressão mais fechada. Menos por causa das notícias ruins (que embora entristeçam sempre, de tanto se repetirem, já não causam tanto impacto) e mais pelo esforço em decifrar as letrinhas. Acordar de manhã e checar o Whattsapp? Esquece! Simplesmente impossível. Precisar ler a bula de remédio ou acertar a medida do antitérmico de madrugada são missões que exigem alguma criatividade e muita resignação. Nem tento mais adivinhar o que está escrito naquelas letras mínimas, já tiro uma foto do texto com o meu celular e amplio a tela com uma agilidade juvenil.

Bom, a verdade é que a vista cansada existe e morre de inveja dos olhos de uma criança, que veem o mundo com aquela curiosidade e ingenuidade que abandonamos em algum lugar do passado.   O doutor até me disse que enxergo mais do que o necessário. Por motivos nada médicos e que ele nem imagina, tendo a concordar com ele. Mas, ainda assim, escolho ampliar meu campo de visão e aderir aos óculos.

A Isabela nunca fez exame de vista. Reparo que ela não tem nenhuma dificuldade em perceber micro sujeirinhas no chão para, em seguida, colocar na boca, claro. Ela percebe os mínimos detalhes de qualquer ambiente onde chega e tem uma verdadeira fixação em pintinhas de pele.  Eu tenho muitas espalhadas pelo corpo, e ela sempre me revela uma nova que, ou eu não tinha visto ou já tinha esquecido. O fato é que o olhar dela, de um jeito ou de outro, sempre me surpreende.

Outro dia, eu estava retocando a raiz, “desfilando” pela casa com os cabelos empastados de tonalizante. Enquanto esperava passar o tempo recomendado na caixinha do produto, ficamos brincando no tablet, testando os aplicativos mais variados. Sem espelho por perto, me deixei fotografar naquela situação constrangedora. Ela estava se divertindo, clicando mil vezes por minuto. Quando olhei o resultado, tomei um baita susto! Era a imagem do terror! Meu olhar realista sabe que o ângulo de baixo pra cima nunca favoreceu meu rosto redondo e eu parecia um hipopótamo de touca transparente. Com a doçura infantil, ouço uma voz desconcertante: “a mamãe é linda!”.  Não é novidade pra ninguém que “quem ama o feio bonito lhe parece”. Fico feliz de poder tomar emprestado aquele par de olhinhos de vez em quando.

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