Será que somos uma decepção para nossas mães?

Ballet clássico para crianças

Por Adriana Brunstein 

Eu estudei ballet clássico. Essa pode parecer uma revelação bombástica para quem me conhece e convive, diariamente, com minha total falta de delicadeza nos gestos. Derrubo coisas, tropeço, esbarro, viro o pé, viro o outro pé, caio, e nada disso com a graça que Jerry Lewis, que partiu essa semana, tinha.

Mas minha mãe, uma aficionada por dança, me matriculou numa academia perto de casa e eu acabei até gostando, principalmente dos espetáculos de fim de ano, onde os contos de fada tomavam o palco e eu podia estar bem ali, ao lado da Cinderela. Bem, eu era só o guardinha do palácio, dava dois passinhos, tocava uma corneta e pronto. E mesmo assim um dia consegui enganchar a manga do uniforme imperial numa maçaneta. O que me consolava é que minha irmã era ainda pior que eu. Ela fazia um dos ratinhos, que entravam no palco de mãos dadas, e vira e mexe ela derrubava um e saía arrastando, como se nada tivesse acontecido.

Mas se no palco a fantasia dava a letra, nas salas de aula as professoras tocavam o terror. Eram extremamente exigentes, até porque de seis em seis meses nós éramos avaliadas por bailarinas do Royal Ballet de Londres. Eu nunca funcionei muito bem sob pressão, para mim toda aquela rigidez era um tanto assustadora, mas acho que no fundo continuei porque era importante para minha mãe. A parte engraçada é que fui parar no grupo que acompanharia um cantor em especiais de Natal e dancei até no Chacrinha. Pena que naquele tempo não tinha selfie, mas saí com um caderninho de autógrafos lotado.

Mas teve uma aula em que a professora resolveu dar uma bronca geral nas alunas e, pra piorar a situação, chamou todas as mães que nos esperavam para testemunharem. Se até hoje eu me apavoro com qualquer possibilidade de levar uma invertida, lá atrás era pior que dar de cara com o mais assustador dos monstros já catalogados, sonhados ou imaginados. Assim que minha mãe entrou eu tive um ataque de choro. A professora lá, falando um monte, e eu morrendo de medo de ser uma decepção sem volta para minha mãe.

Mas o sonho do ballet era dela, não meu. Assim como outros que ela teve para mim, só que a vida me levou para outro lado. Talvez as decepções venham justamente do fato de projetarmos nossos próprios sonhos em outras pessoas. A boa notícia é que com o tempo conseguimos acertar nossos ponteiros, nos fizemos compreender uma pela outra e, quando, na semana passada, ela me disse quase sem querer que me achava o máximo por algumas escolhas que fiz, voltou o ataque de choro. Só que dessa vez ele fico disfarçado de sorriso.

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