Ser pai em tempos modernos

Por Mauricio Bonato, pai da Ligia

Em “tempos modernos”, realmente o cotidiano se transforma, pra melhor ou pior, não sei ao certo. Como tudo na vida, a percepção é relativa. Aos 37 anos me tornei pai, peguei 30 dias de férias (exigi o período) para ajudar nesse primeiro mês a cuidar da pequena que acabara de chegar.

Aprendi a fazer e dar a mamadeira, trocar as fraldas, dar banho, fazer dormir… eu não tinha a menor pretensão de ser também mãe, já que tenho uma esposa presente que é uma excelente mãe e trabalha como fonoaudióloga. Dei duro nesse primeiro mês em que conheci o que é o amor.

Nos três primeiros anos da vida de nossa filha, minha mulher não trabalhou “formalmente”. Vendia roupinhas pela internet e “apenas” cuidou do bebê. Parece fácil cuidar de um “serzinho” tão pequeno e frágil. Deve ser moleza, não?

Eu, trabalhando como narrador esportivo sempre tive horários alternativos. Por vezes, ficava muito tempo com a garotinha. Em outras ocasiões, o tempo era restrito. E assim, a criança vai crescendo… Ela se acostuma com seu cheiro, sua voz, seu jeito e obviamente, sente a sua falta. “Beijo filhinha, amor da minha vida! Papai te ama!” Esta foi a frase que mais vezes pronunciei nesses cinco anos.

O tempo passa e a exigência aumenta. Tive uma mãe que foi sim, mãe e pai ao mesmo tempo, supria todas as necessidades dos três filhos homens e nos criou para ajudar, colaborar. Lavo uma louça que é uma beleza, cozinho também, nunca tive problemas com as tarefas domésticas. Aprendi depois do casamento e, especialmente, após o nascimento da princesinha.

Ela cresceu, começou a andar e a falar precocemente e a entender o que se passava na casa dela: papai ia trabalhar e ficava longe. Após 20 anos de profissão, o papai ficou sem trabalho. A mamãe retornou ao ofício dela e a “nenê” agora sentia a falta da mãe de uma maneira que nunca havia sentido antes. Veio à escola, a adaptação, muito choro, sai da tarde e muda para o período da manhã e mais choro até as coisas se ajustarem.

Papai trabalha como freelancer e a menininha sente sua falta também. “Papai você vai trabalhar hoje?” “Vou sim meu amor…” “Você volta de noite?” “Volto sim…” A resposta é seguida imediatamente por uma caretinha bem feia e decepcionada.

Dai vem à pergunta: até que ponto devemos falar de nossos trabalhos para as crianças, a fim de que elas entendam a importância do trabalho em nossas vidas e que se sintam amparadas apesar da ausência dos pais que trabalham fora de casa?

Uma questão de difícil solução, mas que eu e minha esposa, preferimos levar muito a sério sempre dizendo a verdade para nossa filha, sem joguinhos de “esconder”. Parto do princípio que a verdade pode até doer, mas é o melhor caminho. Não é fácil buscar o entendimento da pequena em relação ao trabalho e procuro não deixar que isso vire um dilema.

Pode ser uma característica dos “novos tempos” ou “tempos modernos”.  As crianças de hoje em dia, muitas delas, são criadas por irmãos e parentes, cuidadoras e pedagogas dependendo da condição social da família em questão. Os pais e mães, de todas as classes sociais, precisam trabalhar para viver e tentar dar ao menos, o básico para suas crianças. É um dilema que transforma as mães em pais e os pais, principalmente, em mães, obviamente com todas as funções sendo devidamente respeitadas e relativizadas.

O importante para nós, homens e pais, é ter a noção de que nossa importância hoje não se limita a “prover o sustento e seus derivados”. Mais do que nunca, temos a obrigação de assumir um papel mais profundo dentro da formação e desenvolvimento de uma família e de um lar. O homem moderno tem que entender as nuances familiares e fazer parte do contexto, se doando mais integralmente ao contexto social e familiar. É uma necessidade que não representa mais uma exceção.

No primeiro ano e meio que vivi sem uma ocupação formal, a falta de dinheiro fez seus estragos, mas hoje reconheço que não há preço que pague os momentos vividos como pai e mãe ao lado da minha menininha. Sem falar que essa criaturinha é a responsável pelo equilíbrio familiar e por desenvolver em mim um olhar mais afetivo para o futuro. Mesmo que incertas, as perspectivas nos enchem de esperança e vontade de viver mais, trocar experiências e ser uma pessoa importante, de fato, no desenvolvimento de outro ser.

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