Relactação: Mas afinal, o quê é isso???

Por Carol Campos, mãe do Pedro e parceira da Simone

 

Eu tenho uma relação complicada com peito. Um mix de pânico com tristeza. Não consigo ouvir a palavra peito ou seus sinônimos sem me arrepiar. Perdi minha mãe aos onze anos pra um câncer de mama violento. Na verdade, não sei se ele era mesmo violento ou se o fato de ter passado despercebido por dois anos o tornou mais forte. Fato é que por causa disso, e por nunca ter aceitado essa perda por achar que foi uma grande sacanagem, meus próprios peitos sempre foram vistos por mim como ameaças. Então, aos quinze anos, retirei sessenta por cento deles, numa tentativa adolescente e meio ignorante de diminuir qualquer possibilidade de eu ter o mesmo destino da minha mãe. Ela tinha quarenta anos. Idade que farei no próximo mês de Agosto e que também me gera uma relação complicada com a data. Mas não é sobre isso que quero falar hoje. O foco é amamentação – aquela palavra que tira noites de sono das mamães meses antes do parto.

Quando engravidei, meu obstetra me disse que seria praticamente impossível que eu conseguisse amamentar, pois os médicos que faziam cirurgias de redução de mama na década de oitenta não ligavam muito pra amamentação e retiravam grande parte (senão todos) dos ductos mamários. E eu passei minha gravidez sofrendo por antecipação pois assim como toda mulher que quer ter bebê, sonhava em ter aquele mini ser pendurado no meu peito e dependendo única e exclusivamente de mim pra se alimentar e sobreviver. Sim. Pensava nisso de uma maneira bastante egoísta mesmo. Conforme a gravidez foi seguindo, várias outras pessoas me repetiam que eu nunca conseguiria alimentar meu filho no peito. E eu fui lá e comprei dez mamadeiras, vinte bicos de mamadeiras, dez tampinhas de mamadeiras, um esterilizador e todo o aparato utilizado para amamentar de maneira “artificial” (termo absurdamente zuado).

Pedro nasceu e na maternidade as enfermeiras e a pediatra tiveram paciência zero para me ensinar qualquer coisa. Eu não sabia amamentar, Pedro não sabia mamar, e o leite geralmente desce no terceiro dia após o parto. Então, naqueles três dias de internação, tentei dar o colostro, que era a única coisa que eu achava que conseguiria dar. Ouvi de umas cinco profissionais diferentes que ele não queria pegar meu peito. Coisa que pra mim era natural, já que ele tinha acabado de nascer e nunca tinha tido que se esforçar pra comer dentro da barrigota da mamãe. Depois ouvi de umas três enfermeiras, enquanto apertavam de maneira super incômoda, o bico do meu peito, que eu não tinha muito leite. E essas frases foram formando meio que uma confirmação do que eu já esperava: não vou amamentar e pronto. E ele vai ter que me amar mesmo assim, que crescer mesmo assim e que se sentir amado mesmo assim.

Só que essas coisas são loucuras que enfiam nas nossas cabeças. Eu nunca mamei. Nenhuma vez. E sinceramente, não consigo imaginar que o amor dos meus amigos que mamaram seja maior do que o que eu sinto pela minha mãe. E eu cresci mesmo assim, ainda que só um metro e sessenta e dois centímetros. E eu me sentia muito amada quando minha mãe penteava meus cabelos ou me levava com ela ao Cabeleireiro ou me beliscava ou me colocava de castigo. E eu sinto uma tristeza quando penso nas noites que passei sofrendo por achar que eu seria um lixo de mãe pois não amamentaria. Assim como sei que muitas amigas se sentiram um lixo por qualquer motivo durante o começo da maternidade. Porque existe sim uma cobrança violenta para que você seja perfeita em tudo.

Bom… no quarto dia, já em casa, uma amiga pra quem eu tinha desabafado sobre minha tristeza em não amamentar foi me visitar. Ela tinha um bebê na época de quatro meses, e mesmo assim deixou ele em casa com a babá e veio em meu socorro. Minha sorte durante todo esse periodo caótico dos primeiros quatro meses foi que as mamães se ajudam. E muitas vieram me ajudar ao vivo ou por tutoriais incríveis enviados durante as madrugadas. Eu nunca vou ter como agradecer esses momentos de maneira adequada. Nesse dia, essa amiga chegou aqui as dez da manhã e eu estava exatamente tentando enfiar a boca do Pedro no meu peito. A esperança é a ultima que morre. Ela olhou pra mim e falou: “Seu peito tá com tanto leite que tá empedrando!”, e me ensinou o Shake – uma massagem maravilhosa pra ajudar o leite a descer. Me ensinou a ajudar o Pedro com a pega, que inclusive era perfeita. Boquinha de peixe. E ele mamava. Mamava e chorava. E perdia peso. E lá fomos nós visitar a (ex) pediatra do Pedro pra tentar melhorar as coisas. Ela me disse (mais uma vez) que eu não tinha produção suficiente para alimentar meu filho e deveria dar mamadeira em vez de sofrer com isso. Exato. “Em vez de sofrer com isso”. Essa foi a última consulta que fizemos com ela.

Eu seguia sofrendo e pedindo ajuda ao meu grupo de mamães anjo. E uma delas me apresentou uma profissional que eu realmente amaria ter conhecido durante a gravidez: a consultora em amamentação. Não consigo entender como é que essas profissionais não fazem parte do pré-natal! Tantos bebês mamariam caso suas mães tivessem essa ajuda! Que falha absurda! E ela veio. Me viu tentar amamentar, viu o resultado, viu a curva de peso do Pedro e sorriu. “Vai dar tudo certo!”. Como assim tudo certo, querida? Eu não tenho leite. Só me ajuda por favor a fazer ele mamar uma semana, pra eu saber como é e pra eu poder contar pra ele que ele mamou. “Você vai rir disso um dia!”, foi a resposta que ela me deu.

Resumindo, no nosso caso o maior problema era minha pouca produção, gerada basicamente pelo meu próprio pânico, e a preguiça do Pepeu em sugar um peito com pouco fluxo. Meu filho já nasceu sabendo o que quer, e no quesito alimentação ele quer MUITO de tudo que puder comer! Minha consultora me apresentou ao maravilhoso mundo da relactação. Existem algumas técnicas e testamos várias até eu achar uma em que me sentiria confortável suficiente para repetir seis a sete vezes por dia, até o dia que desse. E o que consegui foi o da sonda avulsa. É uma técnica bem simples, porém bem complexa. Você pega uma sonda uretral minuscula, tamanho 4, corta uma ponta e coloca no bico do peito, na aréola mais especificamente, e coloca a outra ponta dentro de uma mamadeira sem bico, cheia de leite. A idéia é que o bebê sugue seu peito, bebendo o leite da mamadeira, e te ajudando a produzir mais leite, já que o peito não é estoque e sim fábrica, ou seja, precisa de um bebê sugando para que a produção seja feita. E virei a maior consumidora de sonda uretral tamanho 4 da cidade. No começo, todo o esquema levava uma hora e meia. Sendo que ele mamava de três em três horas. Ou seja, eu passava 80% do dia na poltrona de amamentação. E posso ser sincera? Apesar de ter sido a coisa mais exaustiva que fiz na vida, foi também a mais prazerosa!

Mudamos de pediatra e viramos clientes da Casa Curumim, que é super pró amamentação mas também é super pró “a mãe precisa estar em paz para que as coisas fluam!”. E o pediatra do Pedro tem como lema “Descomplica!”. E lá aprendi a aperfeiçoar minha técnica, o que me fez passar menos horas na poltrona e mais horas dormindo. Dentre essas melhorias, começamos a adotar uma mamadeira criada para ajudar bebês com lábio leporino a mamar. Essa mamadeira funciona como um peito, e tem uma sonda que faz com que o bebê tenha que sugar para que o leite saia. Com diferentes graus de dificuldade. Simone ficou responsável por dar essa última mamada do dia com a mamadeira e eu comecei a dormir mais cedo e mais horas, o que ajudou na produção de leite.

Eu falei que ia fazer esse esquema por um mês, só porque eu precisava disso. O leite que alimentava o Pedro não era só o meu. Mas eu queria aqueles momentinhos. E quando o primeiro mês acabou, eu comprei mais um pacote com cem sondas e falei que ia continuar até o final do pacote. E esse sistema foi sendo repetido mês a mês. E, assim como nos Alcoólatras Anônimos, Pedro e eu fomos nos amamentando mutuamente.

No dia em que ele fez nove meses, nas vésperas de nossa primeira viagem de avião, eu sentei com ele na nossa poltrona de amamentação e comecei a posiciona-lo para a pega. Ele tirou a boca do meu peito, se sentou, e olhou pra mesinha onde estava a mamadeira com a ponta da sonda. Esticou os braços pra pegar a mamadeira e foi aí que eu entendi: quem estava estendendo aquela coisa toda era eu. Quem queria provar alguma coisa era eu. Quem precisava se sentir importante pra ele era eu. Quem precisava desesperadamente levar alguma coisa na vida até o final era eu…

Carinhosamente, abracei meu filho, dei um beijo nele, joguei a sonda no lixo e coloquei nela um bico de silicone. Ele mamou sorrindo. Eu chorei muito. Mas foi de alívio. Porque percebi que ele estava tranquilo.

Decidi falar sobre isso, apesar de ser muito íntimo, porque vejo muitos julgamentos com as mães. Vejo muita dor em alguns olhares. Muitos medos. E o que eu quero dizer pra elas é que por mais que todo mundo saiba dos benefícios do leite materno, por mais que tudo isso seja inquestionável, o que alimenta um filho é o nosso amor.

É uma missão super difícil ser mãe. A gente não nasce sabendo. Mas a gente se adapta. Cada uma a sua forma. Cada uma com a ajuda que tem. Cada uma com as ferramentas que tem. O importante é sempre lembrar que a nossa maneira de ser mãe sempre será a melhor pros nossos pequenos. E todo o resto, sinceramente, não importa!!

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