Quando uma crise familiar se instala, as crianças devem ser poupadas?

Foto: Como Nossos Pais – Trailer oficial HD / Youtube

Quando uma crise familiar se instala, as crianças devem ser poupadas?

Reflexão a partir do filme “Como nossos pais”

 

Por Patricia Travassos

 

A mãe se sente sobrecarregada com a rotina familiar. É ela que acorda as filhas pré-adolescentes, leva para a escola, ajuda na lição de casa, lê histórias e coloca as meninas para dormir. Enquanto isso, o marido é um ativista ambiental que segue seus sonhos profissionais sem se preocupar em dividir as tarefas e nem mesmo as despesas da casa.

“Eu não quero mais fingir que eu sou uma mulher que dou conta de tudo. Eu não dou conta de tudo”, desabafa Rosa (vivida pela atriz Maria Ribeiro). Aos 38 anos, ela está no limite. Trabalha com o que não gosta para garantir o sustento da família e vive em conflito com sua mãe que, logo no início do filme, faz uma grande revelação.

Em meio a tudo isso, as crianças, alheias ao problema, vivem no “olho do furacão”. As personagens mirins do filme já têm idades para perceber o descontentamento da mãe que não mede palavrões e “estoura” diariamente.

Ao #MCP, “Como nossos pais” deixa uma questão a ser pesquisada: quando uma crise familiar se instala (seja um problema no casamento, um período de frustração profissional para os pais ou ainda uma questão financeira), as crianças devem ser poupadas? Ou ver os desafios da vida adulta pode ser, de alguma forma, educativo para elas?

A psicóloga Cognitiva Comportamental Silvia Pacheco explica que as informações de conflitos devem ser adaptadas à idade das crianças. É importante informá-los de situações de crise, mas numa conversa equilibrada em que os pais possam transmitir o que está acontecendo de uma maneira que não vá prejudicar o desenvolvimento psicológico da criança e nem fazer com que ela se sinta obrigada a participar da resolução do problema. Muitas vezes a criança se sente culpada por não poder ajudar nessa resolução. Nesses momentos elas podem se isolar e até optarem por permanecer mais tempo longe de casa (casa de colegas ou avós), completa a especialista.

“Como nossos pais” é produzido, dirigido e roteirizado pelo casal (ou ex-casal) mais bem sucedido do cinema paulista Laís Bodanzky e Luiz Bolognesi. O filme reúne ótimas atuações, com destaque para a força de Clarisse Abujamra e a graça de Jorge Mautner, hilário no papel de um doce artista lunático e pai irresponsável. A protagonista Maria Ribeiro também surpreende na pele dessa personagem que reflete muitas questões femininas na relação com a própria carreira, com o marido, a mãe e as filhas.

Em determinado momento do filme, ela conta para a mãe que a filha mais velha está muito agressiva com ela. A avó adverte: “Minha filha, isso tem começo mas não tem fim. Olhe para você. Chega um determinado momento em que a definição de mãe no dicionário é: aquela que não sabe nada”. Vale a reflexão.

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