Quando as crianças começam a mentir?

Por Adriana Brunstein

 

Eu estava me lembrando aqui de um fato engraçado da minha infância. Quando eu não gostava de alguma comida, ou não queria comer por qualquer outro motivo, eu colocava embaixo do prato. Na minha cabeça, o processo era todo muito discreto. Os pedaços eram pequenos e eu só erguia o grande disco de louça quando todos à mesa pareciam distraídos. Ia de tudo lá pra baixo. Bife, salsicha, legumes. Tinha dias que a minha obra de arte ficava parecendo uma miniatura da Torre de Piza.

 

Eu usei essa estratégia por um bom tempo e achei que estava arrasando. Não me passava pela cabeça que minha mãe sabia de tudo nem como é que a comida desaparecia dali após o almoço ou jantar sem deixar vestígios. Mas, uma noite, a luz acabou enquanto comíamos na cozinha e minha mãe foi buscar velas. Eu aproveitei o breu e empurrei para o esconderijo secreto um bom naco de peixe à milanesa. Eu detestava peixe na época. Bem, quando ela volta com as velas e as acende, rearranja as coisas da mesa e move meu prato.

 

Fiquei em pânico. A luz das velas iluminou minha pescada estraçalhada e isso significava que meu plano fora descoberto e que eu jamais conseguiria arrastar nem uma mísera ervilha para lá pelo resto de toda a minha vida. Embora minha mãe estivesse totalmente ciente de todas as outras vezes em que carboidratos, proteínas e afins foram mandados para o meu particular buraco negro, e não falou nada provavelmente por alguma estratégia que tinha em mente, dessa vez o flagrante tinha sido dado. Levei uma bronca absurda, que começou lá no oceano onde o pobre peixe vivia antes de ser fisgado e foi parar no cenário da fome mundial.

 

Mas eu não me dei por vencida. Confessei minha culpa pelo peixe, mas argumentei que jamais havia feito aquilo antes. Da mesma forma que confessei ter jogado um pote de Yakult cheio de água pela janela do décimo primeiro andar para acertar um pedestre, mas não o balde que foi logo em seguida. Pensando no número absurdo de mentiras que eu contava, acabei usando meu amigo de fé, irmão camarada Google para sanar uma dúvida: Quando é que as crianças começam a mentir?

 

Acabei parando em uma matéria da Superinteressante que diz que, antes de nascermos, já mandamos mensagens químicas para enganar o corpo de nossas mães em nosso próprio benefício. Mas, a partir dos dois anos, começamos a enganar com palavras e não paramos mais. A favor de nossa fase como fetos mentirosos, a boa notícia é que não temos consciência disso. No entanto, assim que nascemos, não somos mais capazes de usar a manipulação química, por isso vamos buscar novas estratégias de obtermos o que queremos.

 

Então quer dizer que, quando crianças, somos terríveis seres amorais? Não. Segundo a matéria, nós aprendemos, sim, que mentir é feio. Só que isso muda conforme a idade. Quanto mais novas somos, mais dividimos o mundo entre bem e mal e achamos que toda mentira é má. Aos 5 anos, achamos que toda mentira é má, mas ainda assim mentimos. Mas isso vai mudando conforme crescemos, até termos consciência do que são mentirinhas de nada e mentiras para valer, pois passamos a entender as implicações além do castigo.

 

Mas, embora explicações científicas sejam sempre muito bem-vindas, a melhor parte de tudo isso é que hoje eu e minha mãe nos recordamos dessas histórias e rimos pra valer. E, nesses momentos, é a verdade do sentimento que temos uma pela outra que prevalece. Não há espaço pra uma lorota sequer. Nem embaixo do prato.

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *