Prosa de filha

Por Adriana Brunstein

 

Estou com 46 anos. Minha mãe, com 72. Não tive filhos e, por incrível que pareça, ainda estou aprendendo o que é, de fato, ser filha. Não espero que eu vá ganhar um diploma, uma medalha imaginária, nem nada desse tipo, até porque duvido que esse processo tenha um fim. O redescobrir minha mãe e o me redesenhar como filha parecem se renovar a cada segundo, afastando toda e qualquer possibilidade de que uma ciência exata dê as regras.

Eu, desde o conhecido clichê de me rebelar na adolescência, passando de uma criança tímida e recolhida nos cantos a uma descabelada garota com patches de bandas de heavy metal costurados nas calças rasgadas, sempre fui mais expansiva, respondona, dona da verdade até quando ela era uma mentira descarada. Minha mãe era mais retraída, de guardar sentimentos, e, a não ser quando ela estava me dando uma bronca terrível, era muito difícil saber o que se passava em seu íntimo. E eu não tinha a maturidade necessária para tentar me aproximar. Hoje, conversamos bastante, mas não diretamente sobre nossa relação. Falamos sobre séries (somos ambas viciadas), lamentamos sermos um fiasco na cozinha, e ela se delicia de verdade quando conta algo sobre seus dois netos, filhos da minha irmã. Mas, é nas entrelinhas dessas conversas que estamos falando de nós. Do que não foi dito, do que foi dito mas não compreendido, do que deveria ter sido dito e ficou guardado.

É curioso como temos que nos afastar, seja no tempo ou no espaço, para termos uma compreensão mais lúcida do que vivemos e vivenciamos como filhas. Temos que ser espectadoras de nós mesmas, saber rir do que foi engraçado ou não teve cabimento algum, chorar mais uma vez por aquilo que doeu tanto, embaralhar e desembaralhar todas as emoções contidas nessa relação única e exclusiva.

A coluna “Prosa de filha” é na verdade uma gigantesca mesa para montar um quebra-cabeças com infinitas peças que vão se encaixando por meio de lembranças, histórias contadas, memórias – as legítimas e aquelas que são um truque da nossa mente – para formar a imagem desse eterno aprendizado. Afinal, como escreveu Murilo Mendes em uma das mais belas frases já impressas: Nascer é muito comprido.

E, aqui nessa mesa, você também tem espaço para compartilhar suas experiências de filha, trocar figurinhas, deixar suas impressões e fazer parte dessa prosa. Puxe a sua cadeira!

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