Prosa de filha: João-de-Barro

Por Adriana Brunstein

 

Lá longe no tempo, um quase “era uma vez no jardim de infância”, estudei numa escolinha chamada João-de-Barro, nome do hábil pássaro que constrói seu ninho em forma de forno e canta alto e forte. A entrada do ninho é sempre voltada para o norte, evitando que o vento entre.

O uniforme era de um azul bem claro, com um short daqueles bufantes presos por elásticos na cintura e nas pernas, modelo que já se perdeu em algum momento da moda e não tenho certeza se voltou a figurar nas vitrines de lojas de roupas infantis. Acompanhando o short vinha uma espécie de bata ou avental com botões de pressão que se fechavam – sabe-se lá qual foi a lógica empregada nisso, se é que teve uma – nas costas.

O pátio da escola era todo de terra escura, ou provavelmente foi esse o jeito que a minha memória deu de guardar aquele espaço que se tornou palco de um dos primeiros de uma série de episódios com altas doses de dramaticidade (eu sempre adorei um bom drama) que eu experimentaria na vida.

Era um tempo em que não se empregava o termo bullying, e eu não sei dizer, hoje, se já tinha alguma compreensão nítida do bem e do mal. De todas as nuances entre esses dois extremos, certamente não. Mas creio que naquele dia eu meio que descobri que pessoas podiam ser cruéis por pura diversão ou por motivos que passam longe de algo que eu consiga explicar com sensatez.

Mas, enfim, voltemos ao pátio de terra escura que agora também tem balanços, escorregador e um gira-gira que faz um barulho ardido a cada volta. Eu estava num canto, distraída com alguma coisa, e uma garota chegou por trás e desabotoou todos os botões do meu uniforme e saiu rindo e correndo. Todos. Em uma sequência de tec-tec-tec-tec que me deixou sem reação por uns instantes até que eu abri um berreiro. Sabe aquele berreiro que na verdade quer dizer “Eu quero a minha mãe!”. Pois foi um desse. Ninguém mais além dela poderia me ajudar. Ninguém mais além dela conseguiria fechar todos aqueles botões da maneira certa. Ninguém mais além dela seria capaz de fazer o tempo voltar e mudar a sequência dos eventos. Acho que é esse o poder que atribuímos às mães e, de certa forma, é essa a impressão que elas nos passam quando nos envolvem em um abraço ou simplesmente suavizam as coisas com as palavras mais simples e mais fortes do mundo.

Há pouco tempo, guardadas as devidas proporções, eu me vi novamente na pele da garotinha de uniforme azul. Levei um desses baques que vêm com a vida, me sentei no chão da sala, sobre os tacos escuros, abri um berreiro um pouco mais adequado a alguém na faixa dos 40 (mentira, foi escandaloso mesmo) e então o telefone aqui de casa, que só costumava receber chamadas de telemarketing, tocou. Era minha mãe. Não nos falávamos há um tempo por conta de escolhas e atitudes erradas que eu tomara. E eu só conseguir dizer “Mãe…”. E ela entendeu. E eu entendi. E ficamos em silêncio até ouvir o vento que desviava da entrada do ninho que ela ainda constrói pra mim.

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