Posto, logo existo

Foto: Mãe com Prosa

Posto, logo existo

Por Michelle Póvoa Dufour

 

Mamãe, você não vai postar? Foi o que Elisa me perguntou logo depois da foto que tirei do bolo de areia mais lindo do universo, feito por ela, no parquinho do clube. Quando vi a obra-prima não tive dúvida, saquei o celular e eternizei aquele momento. Eternizar pra quem mesmo? Foi a pergunta que me fiz (adoro reflexões pré-postagem o que quase sempre elimina qualquer possibilidade de postagem) e depois de pensar uns segundinhos respondi: quero guardar este momento pra mim e talvez por isso nem precisasse de registro, uma vez que as coisas mais legais a gente guarda no coração e não no rolo da câmera do celular.

 

Quando as meninas nasceram eram a atração onde quer que eu fosse. Imagine dois bebês mega rechonchudos, super cabeludos e sorridentes, num carrinho que mais parecia trenó do papai Noel? Eu entrava em qualquer lugar e já me preparava psicologicamente para o bombardeio: quem nasceu antes? Foi tratamento? Dá muito trabalho? Queria duas assim! Meu sonho!!!! E aí me lembro de uma vez no aeroporto uma mulher pegar o celular e, do nada, tirar uma foto das meninas sem sequer me perguntar. Gente! Fico aliviada em pensar que há 8 anos existiam poucos telefones inteligentes com capacidade ilimitada de tirar fotos mais profissionais que JR. Duran e possibilidade de postagem para o mundo inteiro apreciar. Eu mesma morreria, tamanha a tentação. Acho que tiraria fotos 24 horas por dias das minhas gêmeas encantadoramente charmosas. Claro, hoje tiro muitas fotos delas (especialmente de pés), sim posto algumas e confesso que vivo cenas imaginando como ficariam na capa do meu Facebook. Mas sempre fico pensando na geração do “posto, logo existo” e de que maneira poderia ensinar para as minhas filhas que postar não significa viver, aliás viver para postar é uma das maiores armadilhas do nosso tempo.

 

Na minha infância a gente congelava o sorriso que nem as crianças de hoje, mas sabíamos que teríamos apenas uma chance porque o preço do “filme 12 poses” era salgado e, apesar do capricho do fotógrafo, o resultado da revelação poderia ser… nenhuma foto revelada. E aí fico viajando e filosofando que por culpa nossa as crianças andam achando tudo meio efêmero, meio descartável, que se não der certo dá pra apagar e se ficar feio é só botar um filtro que tudo fica lindo, mesmo sabendo que não é o original.

 

No fundo adoraria que Elisa e Manu vivessem um pouco desse tempo e guardassem os seus momentos na recordação, lugar mais acolhedor do que no Instagram ou no feed do Facebook.

 

 

*Se você está pensando que sou uma mãe incoerente já que tenho uma coluna virtual, que meus post´s com fotos das minhas filhas estão nas redes sociais e que de vez em quando elas até aparecem nos meus vídeos do YT, acertou! Sim sou incoerente, mas super inquieta e duplamente confusa.

1 Comentário

  1. Maria de Fatima Miquelão Pena disse:

    Amo tudo que leio e assisto que minha sobrinha fala e escreve. Ela Michelle é muito inteligente e Eu curto todos os seus comentarios do MÃE COM PROSA.

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *