O pesadelo da nota vermelha

Por Adriana Brunstein

No final do primeiro semestre letivo, meu sobrinho de 9 anos entregou a minha mãe, sua avó, uma prova meio dobrada, que nem origami pela metade, e pediu para ela assinar. Claro que ela desconfiou na hora: aí tem coisa. E tinha. Uma bela nota vermelha. Ele certamente pensou que a avó jamais lhe daria uma bronca, o que não era tão garantido com sua mãe, minha irmã. Desde que o mundo é mundo, e com raríssimas exceções, avós são mais tolerantes, mais boazinhas, e mais pacientes que mães.

Curiosamente, a prova era de geografia, matéria que sempre foi um terror para mim também. Eu não via sentido algum em ter que decorar qual era a vegetação que cobria o sul do Uzbequistão durante os meses de inverno, e cheguei a discorrer sobre a China em uma questão cujo mapa era da Rússia. Provas, para mim, sempre foram um tormento dividido em três partes: ter que estudar, ter que fazer a prova, ter que mostrar a nota para minha mãe.

E se minha mãe hoje, de fato, é essa avó tolerante, boazinha e paciente, ela foi uma mãe super brava e exigente quando o quesito era escola. Então, quando eu tirava aquela nota baixíssima, já sofria com os pesadelos que antecediam o dia da assinatura. Eu pensava em dar alguma desculpa trágica, falar que a professora era louca e tinha exagerado na dose, que a prova havia sido cancelada porque a diretora havia abolido todas as avaliações do ano depois de ter tido uma visão, enfim, passava de tudo pela minha cabeça. Infelizmente, nada funcionava. O final da história era sempre eu, cabisbaixa, caminhando em direção à mesa redonda que ficava na sala de casa para entregar minha própria sentença de castigo.

A pior parte era o discurso de minha mãe. Duro, implacável, com argumentos que incluíam o custo de minha educação, as oportunidades que eu estava jogando no lixo, o futuro que eu estava arruinando. Seus argumentos só foram fervorosos assim novamente quando apresentei alguns de meus namorados. E confesso que, nesse caso, eu devia tê-la escutado!

Mas, se tudo isso pareceu um exagero à época, hoje eu entendo que, para ela, a minha formação era mais importante que tudo. Era onde ela apostava todas as suas fichas, até porque eu realmente tive oportunidades que ela não teve. E, além de entender, nós conversamos muito sobre nossos erros e acertos, e eu tenho plena consciência de que ela sempre fez o que acreditou ser o melhor para mim. Não houve outra intenção que não essa.

Então, mesmo que eu detestasse a escola X, não suportasse a escola Y, não me adaptasse à escola Z, eu sei que em cada uma delas estava matriculado também o plano que minha mãe tinha para mim.  Se não era o meu, se a vida se encarregou de me dar outras escolhas, isso não importa agora. A melhor coisa que aprendi nesses anos todos – e não está em escola alguma –  foi a de me reaproximar dela e me tornar sua amiga. De uma forma que jamais fomos antes porque minha imaturidade não permitia (e também porque o coração dela amoleceu muito com os netos!). A relação que temos hoje leva nota azul sempre.

Ah, e meu sobrinho estava coberto de razão, não teve nem sombra de bronca ali. Já o que rolou quando ele mostrou a prova para minha irmã… Bem, ela ainda não é avó!

 

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