Não aconteceu nada, mãe

Por Adriana Brunstein

 

O telefone aqui de casa toca. Caso eu não atenda porque estou fora, tomando banho ou separando briga entre meus gatos, logo chega o Whatsapp: “Oi Dri vc está em casa?”. Antes que eu tenha tempo de responder o celular já toca. “Por que você não me respondeu?”. Minha mãe é dessas. Brinco que não tenho ideia de como ela sobrevivia naqueles tempos pré-celular, em que vira e mexe eu tinha que correr atrás de um orelhão para dar notícias como vou atrasar, estou indo para a casa de uma amiga, não, não fui atropelada por um ônibus, nem sequestrada e o raio atingiu o outro lado da calçada. Não aconteceu nada, mãe.

Durante a minha adolescência, era comum chegar em casa e ver aquela cabecinha do décimo primeiro andar espiando. Ela até tentava se esconder um pouco, variava de janela, mas estava sempre lá, de guarda, provavelmente conferindo o horário de 30 em 30 segundos. E, provavelmente pelo fato de eu ter sido uma teenager insuportável e respondona, atraso era sinônimo de bronca. Foram vários arranca-rabos, de intensidade proporcional aos minutos de atraso. E, nessa época, eu não percebia que tudo era uma roupagem para uma preocupação excessiva que até hoje ela tem comigo e só recentemente ela me falou que o “não ter notícias” a remete a uma perda muito difícil que teve em sua vida.

Resultado? Eu fiquei igualzinha. Acho que talvez até pior. Fico pensando que se tivesse filhos seria daquelas que liga para o celular esquecido em casa esperando que eles atendessem sei lá como. Que se virassem. Que tentassem telepatia, código Morse, sinal de fumaça. Hoje, ai da minha mãe se não sai voando daquela estufa barulhenta de cabelos no salão para atender minha chamada que vibra em sua bolsa, mesmo que ela tenha avisado que estaria lá durante o período tal.

A verdade é que mal nos damos conta do quanto incorporamos de nossas mães. Lembro-me que uma vez viajamos, apenas nós duas, para uma pousada. Eu tinha acabado de me separar (de novo!) e nada como a natureza e ombro de mãe para a gente prometer que nunca mais vai se envolver com ninguém para logo depois já estar com o pé preso na armadilha. Eu estava largada em uma espreguiçadeira e ela entrou na piscina e arriscou umas braçadas tímidas. Fiquei observando e pensando em como éramos diferentes, no físico, no jeito, em tudo. Então ela parou e me olhou de volta como quem diz “Espere só pra ver”. Pois é. Quem saiu daquela piscina sou eu hoje.

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