Na educação das crianças, disciplina é liberdade?

O #MCP conversou com quem entende muito do assunto, o professor, filósofo e escritor Mario Sergio Cortella. E já começamos perguntando: qual o papel da disciplina e da educação para construirmos uma sociedade mais livre? O Cortella começou citando aquela frase que a gente sempre vê publicada nas redes: “O mundo que vamos deixar para nossos filhos depende dos filhos que nós vamos deixar para esse mundo”

 

Disciplina não é tortura, é a organização da liberdade

Como ele explicou, a disciplina é a organização da liberdade. Sempre que somos disciplinados, saímos do autoritarismo, das circunstâncias do acaso e organizamos a nossa ação. Mas tem uma dúvida que muitos pais têm: se as crianças não tiverem limite algum, não é assim que serão livres? Cortella é enfático: jamais! Se não houver limites, as crianças não têm como balizar suas ações. O limite é algo elástico, a ser mexido, trabalhado, mas é fruto da disciplina.

E o professor ressalta que disciplina não é tortura, não é crueldade. Disciplina é uma oferta de fronteiras. E fronteiras não são barreiras que impedem a passagem. Por isso os pais devem organizar a vida da criança com as fronteiras, mesmo que ela as ultrapasse um dia!

Mas será que a disciplina vai contra dar liberdade demais? Para Cortella, a expressão liberdade demais não faz sentido. A liberdade é ou não é. Não tem demais nem de menos. A liberdade se constitui num território onde você pode caminhar fazendo suas escolhas desde que não colidam com a vida de outras pessoas e nem ameacem sua integridade física, moral ou espiritual. A capacidade de oferecer à criança o exercício da liberdade não é, de modo algum, abrir mão da responsabilidade como educador ou educadora.

 

Na educação, algumas liberdades têm limites

Cortella esclarece que a palavra “educação” significa conduzir, levar alguém de um lugar para outro. Então, se somos responsáveis pela educação de uma criança, precisamos entender que ela não tem todas as noções nem todas as condições para ser autônoma. Nós temos que organizar quais são os territórios em que ela pode fazer sua movimentação para ter uma vida disciplinada. E isso não significa constranger ou impedi-la, mas sim oferecer a ela a organização de sua vida e capacidade. Caso contrário, abrimos mão da responsabilidade. Não podemos dizer a uma criança para assistir o que quiser na televisão ou fazer a tarefa na hora que achar adequada.

Outro ponto que Cortella destaca é que não é a criança que decide o que todos na família vão fazer. Por exemplo, se a criança gosta muito de um determinado restaurante, a família pode almoçar lá como um carinho feito a ela, mas não como submetida a uma ordem!

Mas será que falamos muitos “nãos” aos nossos filhos? Cortella diz que autoridade é diferente de autoritarismo. Autoritarismo é a exorbitância da autoridade. E devemos, sim, dizer não a uma criança, porque a ideia mais perigosa que existe em sua formação é a de que o amor aceita tudo. E não é assim. O amor que não tem requisito é irresponsabilidade. O que sempre devemos dizer é “porque eu te amo, eu não aceito isso”.

 

O castigo é eficaz na educação dos filhos?

O #MCP quis saber do Cortella se ele é a favor do castigo. E a resposta foi: sempre. Mas não o castigo que agride ou machuca, mas aquele que serve como alerta. Não é colocar a criança ajoelhada no milho, é a responsabilização por seus atos. Os castigos variam com a idade da criança e de acordo com a circunstância. Não adianta dizer a uma criança de dois anos: sábado você não vai ao cinema. Ela ainda não tem a noção de tempo, portanto, sábado é algo que não faz sentido. Com essa criança, devemos trabalhar com o “agora”: Agora você não vai assistir televisão. Ela tem que entender que toda ação corresponde a uma responsabilidade.

Mas, e quando uma criança chora e nós ficamos com o coração partido? Bem, Cortella afirma que ninguém morre de choro! Chorar não leva a sofrimento. O que leva a sofrimento é se machucar, começar a se bater na parede. Aí sim você tem que interrompê-la, constrangê-la com um abraço forte, pois pressão é diferente de crueldade. Mas bater, nunca!

 

Este artigo é parte da série especial “Como educar seus filhos”

 

 

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