Moça, me ajuda a comprar leite pro meu filho?

Por Patricia Travassos

Quer me cortar o coração? Me aborde com uma criança no colo pedindo dinheiro para o leite ou para um pacote de fraldas. Logo me coloco no lugar daquela mãe. Se viver na rua já é uma situação arriscada para a saúde de qualquer pessoa, imagine para uma criança! E me ponho a pensar no futuro daquele filho e a comparar com as perspectivas de vida que faço para a minha filha…  

Nesses dias frios e de chuva, então, o conflito fica ainda maior: dar dinheiro vivo não me parece adequado. Passei a vida ouvindo que não se dá esmola sob o risco de estar contribuindo para a compra de drogas. Mas, e se eu entrasse numa farmácia e comprasse os itens de primeira necessidade para aliviar minimamente a carência daquela criança? Será que seria suficiente para ela e a mãe se sentirem melhor, ainda que por pouco tempo? Ou o efeito “alívio imediato” seria mesmo só para mim? Eu afastaria a culpa e finalmente conseguiria tirar aquele rostinho da minha memória. Será? A resposta é não.

Não tem sido suficiente para esquecer, não só, um rostinho, como vários deles que tenho cruzado com cada vez mais frequência na região onde moro. Ando muito a pé por aqui. Trabalho ao lado de casa. E escolhi a Paulista para viver porque, daqui, sempre me senti conectada com o mundo, cercada por prédios altos e antenas coloridas. Na Avenida Paulista fiz faculdade, consegui meu primeiro emprego… Quando deixei a casa dos meus pais, vim pra cá. Como carioca fajuta que sou, adoro caminhar na “orla”, cruzando gente de todos os estilos. Só sinto falta do mar…e de um horizonte para tanta gente.

Por isso, fui buscar informação e aconselhamento com quem conhece a situação de outro ângulo. Um vizinho querido é Juiz na Vara da Infância e Juventude do Estado e também é constantemente abordado pelas mesmas mães com seus filhos no colo. A indignação dele é igual à minha e à de qualquer pessoa que carregue um coração batendo no peito. Mas, segundo ele, oferecer essa ajuda imediatista de comprar leite ou um pacote de fraldas só prolonga a situação de risco dessas crianças.

Veja que contradição: “a ajuda atrapalha, Patricia”, ele me disse. “Pode jogar no lixo meses de trabalho realizado pela assistência social que tenta atrair pessoas de rua para centros de acolhimento e albergues”. “Então, devo seguir meu caminho de braços cruzados, fingindo que não estou vendo o problema?”, perguntei. A resposta é não.

Uma alternativa que ele sugere é usar o mesmo dinheiro do leite e das fraldas e doar para instituições sérias, contribuindo para estruturar melhor quem oferece abrigo ou programas que possibilitem, de fato, o resgate da dignidade de moradores de rua, abrindo novas perspectivas para seus filhos. Vou procurar me informar melhor sobre esses serviços. E enquanto isso, sigo em conflito. Qual a mãe que consegue dizer não para outra mãe assim? Faço questão de enfatizar que a discussão é apartidária e que, se confiássemos em políticas públicas, não trataríamos de forma pessoal dramas sociais. E nem, nunca, passaria pela minha cabeça enxergar a avenida Paulista (e outros tantos endereços)  como um beco sem saída para cada vez mais pessoas.

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