Meu diário secreto

Por Adriana Brunstein

Não sei se ainda é costume entre as meninas, mas nos meus tempos de criança tínhamos um pequeno caderninho onde colegas, professores e familiares escreviam um pequeno texto dedicado a nós. Um trocadilho, uma brincadeira com as letras do nosso nome, um versinho improvisado, cada um tinha o seu jeito de dar o recado. Eu ficava particularmente encantada em ler tudo aquilo, me sentia super importante. Era como se fosse um documento juramentado de que todo mundo ali faria parte da história que eu ainda estava construindo.

Meu caderninho, que na capa tinha uma ousadíssima Betty Boop, estava quase lotado. Mas havia uma folha em branco esperando por um depoimento muito especial: o da minha mãe. Engraçado que essa semana mesmo ela me disse, assim que viu a capa do meu livro novo: “Não sei como você é minha filha, eu sempre fui péssima para escrever”. É, ela tem um jeito bastante particular de mostrar que se orgulha de mim, que hoje eu reconheço instantaneamente. Mas a verdade é que, com essa desculpa do “sou péssima para escrever”, ela me enrolou por um tempão até finalmente prometer que a página em branco do meu caderninho seria preenchida naquela noite. Então, eu que desse um jeito de dormir logo para esperar a manhã seguinte.

E lá fui eu conter minha ansiedade enfiando a cara num travesseiro magricela que eu tinha, reprovado com louvor por todos os ortopedistas do planeta. E, assim que a luz da manhã fez menção de entrar no quarto, corri para minha escrivaninha tateando tudo e lá estava o caderno. Abri com um cuidado desconfiado, ainda havia o risco da página continuar em branco e eu ter que escutar mais uma vez um “ai, filha, eu não consigo”. Mas encontrei sua letra inclinada, aquela mesma, que ela detestava e eu sempre quis ter. A letra que vinha das mãos de quem fora uma exímia datilógrafa escreveu assim:

“Sorria.

Mesmo que seu sorriso seja um sorriso triste.

Porque mais triste que um sorriso triste

É a tristeza de não saber sorrir.”

 

Sei que minha mãe não é autora desse texto, e nem me interessa buscar no Google quem o escreveu primeiro ou quando. Para mim, as palavras são dela e apenas por isso continuaram vivas em minha memória. O caderninho desapareceu como tantos outros objetos. As pessoas que deixaram seus testemunhos tomaram seus próprios rumos, nem sei mais delas. Minha mãe provavelmente não se lembra disso, mas não importa. Tenho certeza de que ela nunca se esqueceu do dia em que me ensinou a sorrir.

 

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