Mãe mata a gente de vergonha

Por Adriana Brunstein

Eu senti muita vergonha, daquelas que dão vontade de se esconder igual avestruz. Ela abriu a porta da classe e, vestida como um homem, de camisa xadrez, macacão, barba e bigode pintados com lápis de olho e chapéu de palha, veio me dar um recado. Sorriu meio que escondendo os dentes, da mesma forma que eu sorrio hoje para disfarçar uma falha que anos de aparelho ortodôntico não deram conta.

Era dia de festa de São João na escola e todas as mães foram convocadas para uma quadrilha e também para comandar barracas de brincadeiras. E, para mim, era dia também da fantasia se traduzir em uma outra realidade. Eu me sentia diferente demais das crianças que dividiam a sala e minha pequena amostra de mundo à época. Todas – e eu não exagero quando digo todas – aos meus olhos tinham aquelas mães perfeitas dos comerciais de margarina. Cabelos compridos, corpos esguios vestidos com roupas da edição especial da revista Desfile, maquiagens impecáveis e a postura irretocável da Audrey Hepburn. Então, aquele dia todo colorido por bandeirinhas, podia trazer para mim essa mãe de sonhos, a noiva perfeita do casório que seria encenado no pátio.

Só que minha mãe apareceu daquele jeito desengonçado e as outras crianças riram pra valer. Naquele momento, qualquer história que eu porventura tivesse inventado sobre ela, para me sentir menos deslocada, fora por água abaixo. A sensação era a de que todas me apontavam me condenando por minha mãe ser apenas uma figurante, no máximo um padrinho do noivo. Claro que eu não tinha maturidade para pensar no que foi para aquela mulher de cabelos bem curtos, que nunca usou nem um batom e cuja timidez se mostrava explícita na vermelhidão de seu rosto aparecer em público vestida daquele jeito.

E ela o fez por mim, para participar de uma atividade escolar e me dizer, nas entrelinhas: “Eu estou aqui”. Passaram-se anos, creio que até demais, até que eu entendesse que mães fazem absurdos por seus filhos, deixam de lado o medo de parecerem ridículas e engolem a seco nossas tolas ingratidões por elas, muitas vezes, não serem o que desejamos.

Hoje, ainda aprendendo a conhecê-la, sei que ela arrumou uma força gigante para fazer parte daquele momento da minha vida. E se o tempo me levasse de volta para aquela sala de aulas, eu me levantaria correndo da carteira e daria um abraço cheio de orgulho naquele padrinho do noivo, mas daria uma boa retocada naquele bigode!

 

Pensando bem, que bom que ela não fez que nem este padrinho aí: 

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