Lentes infantis, para ver o mundo melhor

Foto: Mãe com Prosa

Lentes infantis, para ver o mundo melhor

Por Michelle Póvoa Dufour

 

Como empalha bicho? Por que a água vira gelo? O que significa exceção? E o nome Panco aqui na embalagem do pão, o que é? Posso misturar cola com perfume? E botar corante no “Tênis Pé Baruel”? Que lindo! Que pena! Tadinho! Que máximo!!!

 

As meninas estão crescendo e, veja só, continuam encantadas pelo mundo e encantadoras. É um barato pensar que tem um monte de coisas que elas vivem pela primeira vez. Primeira vez que ouvem uma palavra, que experimentam uma comida, que ouvem uma musica (mamãe, isso é um cantor ou uma cantora?). Quando a gente é mãe tem a chance valiosa de enxergar o mundo pelos olhos dos filhos que não entendem como uma criança pode estar na rua sem sapatos e sem os pais, que acha estranho a gente fechar a janela do carro porque tem medo de outra pessoa, que não entende porque adultos se beijam e logo depois falam mal uns dos outros. Mas eles não eram amigos, mamãe? Acho fascinante acompanhar a visão de uma criança porque ali existe coerência, pureza, uma novidade que os nossos olhos acostumados insistem em não notar.

 

Minhas filhas até hoje olham admiradas para a lua cheia, vão para escola com tiara de unicórnio, torcem para que falte luz só pra usarem lanternas, adoram dançar na chuva e andar no estacionamento sem pisar na linha branca. Ah, e acham o máximo parar bem na frente da porta do shopping e vê-la porta se abrir como se fossem princesas. Eu sei que elas estão ficando mocinhas e que, em pouco tempo, vão ter vergonha de sair de pijama, de falar que não gostaram da atitude de alguém assim na lata, que vão andar na rua com (mais) medo das pessoas estranhas e notar que nem sempre o que a gente diz é exatamente o que a gente sente. Puxa, que pena!

 

Mas vou tentar estar de olhos bem abertos para que não percam a espontaneidade, a visão de que no mundo todos precisam ser notados, de que saibam que o cotidiano sem encantamento é bem mais duro. Vou tentar também ajustar as minhas lentes e usar o mesmo grau de clareza das crianças para curar a minha vista cansada.

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