Hope – É possível retomar a vida destruída de uma criança?

Em um primeiro momento, Hope parece não nos dizer respeito. É um país distante física e culturalmente do nosso, que fala uma língua estranha que, se não fosse legendada, poderia até nos causar certa confusão: estão brigando? Estão falando de algo engraçado? No entanto, esse distanciamento dura pouco. Logo nos deparamos com um casal vivendo uma relação totalmente desgastada e uma criança ávida por atenção e carinho.

 

Este cenário, que agora já reconhecemos, marca o início a história da pequena So-won, de 8 anos, uma menina extremamente doce e carinhosa que tem uma rotina estabelecida por escola, lição de casa, implicâncias de um coleguinha e adoração por um personagem vermelho e rechonchudo de um programa de televisão que lembra um dos Teletubbies.

 

So-won, que em inglês significa “hope” e, em português, esperança, tem sua vida totalmente transformada em um dia de chuva em que seu pai se mostrou incapaz de fazer um simples rabo de cavalo em seus cabelos, seu coleguinha implicante a deixou para trás e sua mãe a aconselhou a ir para a escola pela via principal. Hope, com seu guarda-chuva amarelo e seus passinhos cuidadosos no chão molhado, é abordada por um homem bem mais velho que desperta sua compaixão fingindo que só precisa se proteger da chuva.

 

Hope é violentada brutalmente pelo homem que ela acolheu, em uma cena que não é mostrada no filme, mas que em nossa cabeça é a mais hedionda que podemos imaginar. E é esse horror inominável que nos faz esquecer que é a Coreia, que é outro idioma e, principalmente, que é um filme.  E, mesmo que não fosse baseado em uma história real, as sequelas físicas e psicológicas que vão marcar Hope pelo resto da vida nos doem também com a culpa que a mãe sente, com o pai que ela não aceita mais por ser um homem, com o coleguinha implicante que está começando a descobrir o real valor dos sentimentos, com a “justiça” que age de maneira fria e patética.

 

Ninguém sabe o que fazer e nem mesmo se é possível fazer alguma coisa. Primeiro tentamos nos livrar da culpa para depois agirmos? Vestimos a fantasia de um boneco vermelho e rechonchudo para nos reaproximar de uma criança assustada demais? Aceitamos ajuda por assumir que não temos forças para lidar com algo assim? Quanto de esperança podemos devolver a essa menina que teve a vida destruída?

Hope está disponível na Netflix.

 

 

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