Eu não gosto de você, mãe

Por Patricia Travassos

Foi um divisor de águas na minha maternidade. Tudo parecia normal naquele dia. Acordamos com música, fomos para a escola, segui para o trabalho, tive uma reunião que terminou bem na hora buscá-la para almoçarmos juntas. No caminho, caprichei na afinação e no repertório musical para não deixá-la pegar no sono. Deu certo. Uma rápida parada no banheiro, ainda entoando o refrão de “Lava-lava” dos Grandes Pequeninos, e enfim sentamos à mesa, famintas. Pelo menos eu estava.

Ela parecia mais interessada mesmo na televisão. Pediu para ligar a Masha e o Urso, animação russa que tinha sido descoberta poucos dias antes aqui em casa. Bom, expliquei o óbvio: que a hora do almoço é para comer e conversar. Televisão, só depois. Esperta que é, achou que podia acelerar o relógio. Pediu licença da mesa muito antes de raspar o prato e pediu novamente para ligar a televisão. Aí, eu disse: minha filha, você não comeu nada. Volta pra mesa, vai!“. Ela soltou um sonoro nãaaao! Daqueles que não deixam dúvida sobre a vontade de encerrar a discussão. Eu, calmamente, respondi OK. Ela não precisava comer mais, mas como eu não tinha terminado, ainda era hora do almoço…e de educar a criança que tinha acabado de completar dois anos, dando início aos famosos “Terrible Two”. Portanto: televisão desligada! Ela não acreditou que eu pudesse estar falando sério. E se pôs a repetir em looping: “Eu quero ver a Masha e o Urso! Eu quero ver a Masha e o Urso”! Até esse momento, eu estava no controle da situação. O piti não estava me abalando. De verdade! Mesmo assim, errei feio!

Resolvi levar o prato dela até o sofá e negociar três colheradas antes de ligar a TV. Ela tentou fugir e acabou esbarrando no prato, fazendo voar feijão preto, arroz e picadinho de carne com batatas pelos ares, sofá, tapete e…na minha roupa. Tinha também uma deliciosa beterraba cozida, daquelas bem vermelhinhas, cortadinha e temperada com azeite, que veio parar direto no meu peito, manchando a camisa como sei fosse o sangue do meu coração que partiria a seguir.

Respirei fundo e disse: “agora, você dançou! Eu ia deixar você ver TV, mas agora, não tem Masha e o Urso pelo resto do dia. Você está de castigo (pela primeira vez). Não obedeceu, derrubou toda a comida no chão e, por isso, não vai poder fazer o que está com vontade.  Procure outra coisa para se distrair. Se eu fosse você, iria dormir um pouco”, discursei. Ela, claro, caiu no choro intensamente. Pediu, implorou e, não sem dor, eu ignorei solenemente. Foi quando ela deixou escapar o “golpe mortal”: “eu não gosto da mamãe”.  Eu tentei confirmar o absurdo, mas ela não ousou repetir…graças todos os Deuses.

Voltei ao trabalho um tanto abalada. Passei o resto do dia esquisita. Voltei pra casa, abri a porta e… fui recebida com o mesmo abraço de sempre daquela pequena que corre em minha direção assim que eu viro a chave! Um dia normal!

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