Como criar filhos num mundo tão controverso.

Por Marcela Guimaraes, mãe do Lipe (4 anos) e da Julia (2 anos).

Minha maior preocupação como mãe, além das básicas de sobrevivência, é com a criação de seres com bom caráter, justos, e que sejam pessoas admiráveis em todos os sentidos. Nunca penso se o Filipe, hoje com 4 anos, ou a Júlia de 2 aninhos, serão médicos, engenheiros, jornalistas, ou presidentes da república (risos). Sério. Isso não me preocupa.

O que me tira o sono é pensar que um filho meu possa se tornar uma dessas figuras mesquinhas, egocêntricas, que usa o outro e olha apenas para o seu próprio umbigo. Por que tem muita gente assim no mundo. E são elas fazem essa vida ser tão difícil e dolorosa em alguns aspectos. Já as pessoas transformadoras da sociedade, aquelas que realmente fazem diferença no mundo são a antítese disso. É pra elas que meus olhos vão. com o tipo de ser humano eles serão. 

Nesses meus 4 anos de maternidade tenho apenas uma única certeza sobre educação: crianças aprendem por imitação. E o exemplo dos pais é o primeiro a ser imitado. E quanto ao respeito? Como se ensina o respeito? Respeitando. Ouvindo. Não tirando conclusões precipitadas. O que os pais acabam fazendo quase sempre.

Vai aqui uma historinha como exemplo: Júlia apareceu na cozinha apontando para um pote cheio de morangos. Peguei o maior e mais vermelhinho e dei na mão dela. Júlia ainda não fala, mas demonstra bem o que quer e o que sente. Ela caminhou feliz da vida com o morango na mão para o chamado “canto da brincadeira” onde o irmão já estava se divertindo. Segundos depois escuto um choro, daqueles bem sentidos. Fui ver o que acontecia. Lipe estava comendo o morango. Perguntei, em tom acusatório;

– Filho, você pegou o morango da mão dela? Devolve. Isso é muito feio!  

Então Lipe começou a chorar. Dei o morango de volta pra Júlia e ainda completei a bronca:

– Não faça mais isso!

– Mas, mamãe…

Antes que ele complete a frase, eu continuei aquele sabão, dizendo que ela é pequena e que ainda não fala. Mas o Lipe conseguiu se fazer ouvir, quase gritando:

 – Mas eu não tirei da mão dela! Ela que me deu! Você não tem o direito de brigar comigo…

Meu coração derreteu. Olher pra Júlia e perguntei:

– Você deu o morango pro irmão?

Ela estendeu a mãozinha de novo em direção à boca dele. Mas segurou firme. Aí eu entendi: ela queria que ele mordesse o morango, mas não tirasse da mão dela.

Abracei o Lipe e disse:

– Desculpa, filho. Você tinha razão. Ela quer que você morda. Mas não quer que você pegue o morando dela. A mamãe entendeu errado e brigou com você. Vou pegar um morango pra você também, tudo bem?

– Bem grande, tá mamãe. Porque eu também gosto de morango grande.

Volto pra cozinha e escuto o Lipe dizer para Júlia:

– Desculpa, Júlia. O irmão entendeu errado. Achei que você não queria mais o morango.

Eu vou comer o meu e você come o seu, tá bom? Tá tudo bem entre a gente. 

Nem um milhão de livros didáticos, de blogs de mães, de textos de psicólogos ou qualquer teoria pedagógica me ensinou tanto como aquele diálogo.

Lipe lida muito bem com as palavras, mesmo com eles no lugar de erres, ou um “degavarinho” de vez em quando. Consegue expressar em verbos e adjetivos até pouco usuais para a faixa etária dele o que está sentindo. E tem sido uma aula OUVI-LO. Assim mesmo, em caixa alta para deixar claro que escutar nem sempre é ouvir.

Pensei o quanto os pais erram. É o quanto é mais fácil sair gritando. É mais fácil acusar, julgar, apontar…

Por que ouvir uma criança? Por que tentar entender o que se passa na cabeça dela quando tem uma atitude? Talvez porque aprendemos que a autoridade dos pais tem que prevalecer. Talvez os modelos de autoridade – ou a falta dela – façam com que alguns pais se coloquem nesse lugar de acusadores e de “estabelecedores da ordem”.

Ou apenas porque estão copiando modelos ultrapassados de educação, que se tornam até errados. Ou apenas por dificuldade de pensar que, por trás de um choro, um “não quero mais ser um amigo” ou até algo que parece uma birra, está um ser humano em desenvolvimento, tentando criar suas próprias ideias sobre justiça, lealdade, verdade e respeito.

Pra que o mundo seja um lugar melhor, é preciso que os nossos filhos sejam seres humanos melhores. É preciso ouvi-los. É preciso se colocar no lugar deles. É preciso compreender o contexto e deixar de lado tudo aquilo que parecia tão certo em matéria de educação. Educar não é uma ciência exata.  É humanas.

Ou melhor, humanidade pura. Difícil, trabalhosa, mas também muito satisfatória.

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