Educar duas meninas para a vida e não para o Enem

Foto: Mãe com Prosa

Educar duas meninas para a vida e não para o Enem

Por Michelle Póvoa Dufour

Quando eu fiz vestibular tinha de escolher entre medicina (seria incapaz de ver sangue), direito (até tentei, mas ainda bem que nem passei), administração (mais a cara da minha irmã) e jornalismo que foi a escolha mais acertada (será?). Naquele tempo eu já achava que era coisa demais. E hoje?

 

Ah, hoje a gente tem técnico em telemedicina, gestor de ecorrelações, especialista em mobile marketing, advogado de pirataria digital e por aí vai. Tem até universidade fazendo propaganda com o seguinte slogan: a gente te prepara para o que vai surgir. E o que surgirá, gente?

 

Elisa e Manu acabaram de fazer 8 anos e até os 18 ainda temos um longo “chão de escola” e muitas incertezas pela frente. Há quem diga que em poucos anos metade das profissões de hoje sumirão do planeta como fumaça. Um pouco apocalíptico e um tanto fascinante…

 

Mas então, o que ensinar pra essas crianças? E no meu caso, duas da mesma idade, aprendendo as mesmas coisas ao mesmo tempo e com habilidades tão diferentes? O que uma tem facilidade, a outra detesta. Será que vão ser de humanas como a mãe e o pai? Será?

 

Partindo do princípio que é dentro de casa onde acontecem as maiores lições, lá vem a nossa angústia de novo. E parece que o mundo só piora, não acha? Crianças matando outras crianças na escola, adultos matando crianças na escola, professores em depressão, crianças infelizes…

 

De que adianta tamanha inteligência artificial por aí? Quero o natural, o emocional, o amor, o carinho, o afeto, a tolerância, a generosidade, valores que não caem na prova do ENEM, não estão nas reportagens sobre as 10 profissões do futuro, nas matérias sobre as carreiras que mais crescem no planeta.

 

Aqui em casa ensino a escrever cartas (sim, não mandar um áudio) para as amigas, a sentir saudades dos avós, a pedir desculpas, a entender que a gente fica triste sim, muitas vezes. Ensino que nem todo mundo pensa igual (tem gente que acredita em papai noel e fada do dente e outros não), que ser convidada para uma festa é uma gentileza de alguém e não uma obrigação e que existem casas grandes e apartamentos pequenos e que isso não faz a menor diferença na felicidade da vida. Ensino a dizer oi para o porteiro da escola, dar um tchau para o Seu Francisco que cuida do nosso jardim e abraçar as pessoas queridas. Ah, falo sobre a fome no mundo, sobre o fato de nem todos terem as mesmas oportunidades e sim comento que o ser humano tem sido violento, mas que nem por isso devemos nos tornar assim.

 

Espero ansiosamente para que nas provas que medem o conhecimento das minhas filhas também existam questões sobre ética, respeito, resiliência, bondade e que ser alguém que se coloca no lugar do outro garanta vaga em alguma instituição de renome. Tenho certeza que o dia que isso acontecer nós pais vamos pressionar para que o “conteúdo”  seja martelado na escola, assim com o abecedário, as contas de mais e de menos. O dia que isso acontecer vamos encontrar professores ensinando como ser uma pessoa melhor naqueles aulões dos cursinhos pré-vestibulares, nas playlists das videoaulas do YouTube, em posts viralizados nas redes sociais, aqueles que dão dicas de como mandar bem na prova!

 

Já imaginou? Tô até imaginando uma plataforma bem moderna de ensino personalizado cheio de games com o primeiro desafio na tela: nunca faça com os outros o que não gostaria que fizessem com você.

Parece simples, mas não é.

4 Comentários

  1. Graca Rocha disse:

    Maravilhoso!Pura verdade!!!Adorei!Alguém pensando que nem eu!Valore sim ficam para toda a vida!Parbéns!!!!!

  2. Lígia Póvoa disse:

    Amei cada palavra. Me sinto assim e aqui em casa fazemos o mesmo. Temos pela frente 3 anos e aí sim Maria Alice entrará na universidade, sentimos medo, angústia, mas iremos e devemos respeitar e apoiar a escolha dela. Feliz Michele, por ver que há no mundo pais sensíveis, capazes de ver e entender o outro como nosso semelhante e ensinar aos filhos tantos valores importantes.

  3. PAULO SERGIO DINIZ disse:

    Parabéns pelo texto. Sou empreendedor digital e tenho essa preocupação.
    Para onde estamos indo??? Pra que essa loucura???

  4. Wal disse:

    Concordo em partes, indiscutivelmente os valores devem ser passados aos filhos como prioridade. Mas, experimenta submeter suas filhas a um ensino público durante toda a vida, e não ter a faculdade de cursar um nível superior de qualidade , por não ter condições de arcar. E quando a única chance de um futuro, depende em parte da prova do Enem?

    Talvez não adiantar ter todo caráter do mundo e valores extraordinários, trabalhando em um caixa de supermercado, em uma jornada maçante e pouco valorizada. Pra receber mil reais por mês é não ter qualidade de vida. Valores sãoimportantíssimos, mas “educar para o Enem” talvez seja tão importante quanto.

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