Diário de duas Mães

Por Carol Campos, mãe do Pedro e parceira da Simone

Sábado, 9:30am. Ele entra pelo portão da escola, meio que empurrado por mim, porque ele sabe que é sábado já que eu estou de jeans e não de terno, e ele fica meio puto porque mesmo sendo sábado estou empurrando ele portão adentro. Chora, resmunga, até que consegue ver os mini amigos, e os peixes espalhados pelo pátio, pois é dia de celebrar a natureza e a conscientização do uso da água. Ele me olha, do auge dos seus 70 centímetros, e abre aquele sorriso que é capaz de alterar o curso das águas do oceano inteiro.

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Segunda-feira, 1:05am. Ele começa a chorar porque o nariz tá entupido e eu me levanto correndo pra buscar soro fisiológico, sugador de meleca, água, chocalho garrafa Pet com feijão, controle remoto, dedoche de urso, um amuleto. Qualquer coisa que faça ele ficar mais calmo e durma. E assim segue a madrugada, até que as 4:45 ele chupa o dedão da mão direita por dois segundos e capota.

Quarta-feira, 5:45pm. Ele sai correndo e me abraça antes mesmo de eu fechar a porta ao chegar do trabalho. E depois me solta e anda sete passos. Olha pra mim novamente e me espera falar “VEM”! E vem correndo de novo. E isso se repete por uns quatro minutos, até que ele se distraia com uma de suas seis bolas ou tocando seu pianinho azul herdado.

Sexta-feira, 12:35pm. Ele resolve, antes de completar um ano e meio, que quer ser meio vegetariano. E começa a separar os pedacinhos de frango da comida e jogar pras cachorras. E eu explico que ele pode comer o franguinho porque ele precisa da proteína. E ele, que não está muito preocupado com taxas de proteína no organismo, segura cada pedacinho até que caninos afiados cheguem bem perto. A cenoura, a abobrinha, a lentilha e o espinafre vão sendo escolhidos após criteriosa análise.

Tive Pedro aos 39 anos de idade. Menos energia do que várias amigas que foram mães mais cedo, mas um pouco mais calejada pela vida. E mesmo assim posso dizer que NADA me preparou para tantas sensações. Eu nunca joguei bola, empinei pipa ou andei de skate. Mas ele não liga. Ele gosta quando eu pego um boneco de cabelo rasta que ele ganhou e finjo penteá-lo. Ele é dessa geração que graças a Deus já nasceu sem aquele rótulo “de menino” ou “de menina”. Ele não tem pai. Tem doador. Eu não sei o nome, mas sei que ele gosta de esportes, tem um lindo sorriso e que ninguém de sua família próxima teve doenças graves. “Uma boa carga genética” era meu ponto de partida na escolha, já que ter perdido meus pais por motivos de doença me deixaram com medo de ser mãe até os 38. Quase todo dia eu rezo por esses antepassados misteriosos. E agradeço por essa atitude de um cara que resolveu sair de casa, passar numa clínica, e nos dar um milagre sorridente, de covinhas, e pouco cabelo por enquanto. Eu tenho bastante cabelo, então na hora da escolha achei que dava pra balancear. Peço desculpas antecipadas caso ele seja calvo aos trinta. Ele tem duas mães. E sabe disso muito bem. E é democrático: se eu peço pra ele dar um abraço na mamãe, ele dá primeiro na outra. E vice-versa. Talvez ter duas mães seja meio cansativo, porque ele ganha amasso demais. Se bem que meu pai também amassava filhos. Talvez ter duas mães dificulte na hora dele se casar: duas sogras chega a ser uma afronta. Mas ele vai saber lidar com tudo isso. Porque ele também sabe que ter duas mães, num mundo como o nosso, é pros corajosos. Acredito que os bebês escolham pra onde querem vir. Se ele fez essa escolha, em 2015, é porque é dos fortes!

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2 Comentários

  1. Marcelo Neubauer disse:

    Ser pãe ou mai é muito bom. Com mais idade melhor ainda. Não sofremos por bobagem

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