Da Flip à lua

Por Patricia Travassos

Como uma Diva, ela falou e todos se calaram. Como uma Diva, ela atraiu os holofotes e fez todos refletirem. Como uma Diva, ela emocionou quem se deixou tocar por seu discurso. O #MCP se tocou.

 

A professora aposentada Diva Guimarães, de 77 anos, tomou o microfone da Flip em Paraty e abriu o coração. Lembrou seus antepassados escravos e fez uma comovente homenagem à sua mãe que a inspirou a estudar.

 

“Eu sobrevivi e sobrevivo hoje como brasileira porque tive uma mãe que passou por tudo que era humilhação para que nós estudássemos… Sou uma sobrevivente pela educação e pela luta da minha mãe. Ela dizia: Olha bem pra mim. Olhou? Se você quiser ser como eu, não vá para a escola”. Rebelde naquela época, Diva admite que respondia:  Igual à senhora? Nunca que eu vou ser!”.  E, sem se dar o direito de sentir mágoa, a mãe completava:  “Só tem um jeito. Vá estudar!”.

 

Puxa, como mãe, procuro todos os dias me tornar um exemplo a ser seguido pela minha filha. E essa mulher vivia em tal situação que, para inspirar, se colocava na posição de não-exemplo! A mãe de Diva pode não ter conseguido conquistar o que queria para si, mas não poupou esforços nem deixou de sonhar para que a filha chegasse onde quisesse chegar. Na lua, talvez?  Por quê não?

 

Trailer oficial do filme Estrelas além do tempo

 

No filme “Estrelas além do tempo” assistimos à luta de outras três mulheres negras que desafiaram o preconceito e entraram para a história da NASA. O cenário: Estados Unidos, anos 60. Quase a mesma época em que a mãe de Diva, no Brasil, se esforçava para motivar a filha a seguir estudando.

 

Assim como ela, as personagens verídicas do filme também se humilhavam. Se esforçavam muito mais do que seus colegas, ouviam desaforos, e eram segregadas no ambiente de trabalho. Não podiam usar o mesmo banheiro e nem mesmo tomar café junto com os brancos. Para provar do que eram capazes, abriam mão do precioso tempo com os filhos. Mas elas chegaram lá. E eles certamente puderam se orgulhar das mães que tiveram. Inspiradoras, elas deram, por elas mesmas e por todos nós, “um grande passo para a humanidade”.

 

Agradeço a coragem delas e da professora Diva por compartilharem suas histórias, me levando a refletir intimamente sobre o que uma mãe é capaz de fazer ou abdicar por um filho. Independentemente de raça ou condição social, valorizo cada mínimo gesto de generosidade que esconde um enorme desejo de ver o outro dar um passo além.

 

Agradeço à minha mãe pela oportunidades que tive e ainda tenho de crescer. E, quando olho para a minha filha,  fico pensando em como contribuir para que ela seja maior do que eu nesse mundão ainda tão cheio de injustiças, preconceitos e desafios. É assim que caminha a humanidade, com pequenos passos de cada um de nós, todos os dias, sem parar.

Trecho da fala de Diva Guimarães na Flip 

 

 

 

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