A vida em dois tempos, ou melhor, a vida sem tempo

Foto: Mãe com Prosa

A vida em dois tempos, ou melhor, a vida sem tempo

Por Michelle Póvoa Dufour

 

Fica tranquila, em solidariedade à você (a mim e a todas as mães do Universo) vou ser breve e vou, inclusive, negritar as palavras mais importantes porque assim você nem precisa ler o texto inteiro, apenas captar a ideia principal, já que tenho convicção, baseada em evidências, de que você não terá mais do que 2 minutos para se concentrar.

 

Final de ano então? Já era. Tem a festa da escola (já falei dela aqui), os médicos todos que você adiou e tem certeza plena de que por alguma razão desconhecida seus filhos não podem virar 2017 sem ir ao otorrinolaringologista. Sem falar na aula experimental “maker”que você quer que eles façam em 2018, mas, precisa ter certeza ainda em dezembro de que será uma escolha legal. A das meninas, marquei na próxima quinta!

 

Faz uns 8 anos que meu tempo sumiu, aliás, uns 8 anos e alguns meses porque na gestação eu já comecei a sentir a contagem das horas de um jeito diferente. Dia curto pra tanta providência, gente! Mas hoje sei que era um preparo para o que viria.

 

Quer um exemplo prático? Enquanto eu tento comprar entradas para o cinema pela internet (aquelas operações insuportavelmente chatas, uma vez que nunca lembro da senha do ingresso.com) Elisa me pede para ajeitar a alça da bolsa dela, Manu me solicita para cortar a etiqueta do vestido novo, Elisa me pede para fazer um rabo (alto tá mamy?), Manu pergunta se pode guardar a blusa de frio na minha bolsa, Elisa pergunta se vi onde está o brilho que ela ganhou ontem e em seguida Manu vem com um colar na mão para eu fechar. Só comigo, gente?

 

Desde que me tornei mãe tenho dificuldade de concluir um pensamento, fazer uma reflexão mais reflexiva, finalizar qualquer tarefa sem duzentas mil interrupções. E escrever posts inteligentes? Es-que-ce! Só se for durante o trajeto do trabalho, nas paradas da Marginal ou dentro do banheiro (até da Firma) e primeiro no bloco de notas, pra ter a chance de checar antes de publicar se é algo que minimamente faz sentido.

 

Tudo interrompido, duplamente interrompido! E pra falar a verdade mantive parte dessa crônica pronta para quando pudesse finalizar, o que acontece só agora, uns três meses depois de ter começado a rascunhar o texto. E completo meu pensamento depois que acordei, chamei com um beijo duas meninas lindas que dormiam na minha cama, já que o pai está viajando, medi a temperatura de uma delas, que parecia meio quentinha, ajudei a trocar o uniforme, coloquei chá na xícara para uma e salada de frutas para outra, desembaracei o cabelo (tipo juba), prendi um rabo de cavalo (alto tá, mamy?), botei dois grampinhos em cada franja, passei manteiga na bolacha cream cracker, fechei a lancheira (com a graça divina deixei tudo pronto na noite anterior), tirei a jaqueta amassada de dentro da mochila (estava desde sexta-feira!), falei algumas vezes para escovarem os dentes, outras para calçarem o tênis, levei na escola, dei oi para as amiguinhas, cumprimentei o diretor (mesmo descabelada), voltei pra casa, estiquei a cama, tirei o lixo do banheiro, mandei e-mails para o trabalho, uma mensagem para a professora de música, peguei meu computador e retomei a minha crônica. E nem são 8 da matina. É, até que meu tempo rendeu!

 

Só esqueci de cumprir a promessa de negritar os trechos mais importantes. Mas quer saber? Se você é mãe como eu, provavelmente não tenha chegado até o final do meu texto! Te entendo, amiga.

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