A escada rolante da Sears

Por Adriana Brunstein

Na semana que passou, estava eu aqui me esgoelando de chorar com a temporada final de Mr. Selfridge, série da Netflix que conta a trajetória da loja de departamentos de Londres que leva o nome do protagonista. Antes que eu percebesse, minha memória me pegou pela mão e me puxou lá para a Sears, aqui em São Paulo mesmo, que ficava onde hoje é o Shopping Pátio Paulista. Eram tempos em que os hipermercados Extra ainda se chamavam Jumbo Eletroradiobraz e as sacolas, de papel, traziam estampados um simpático elefantinho e uma sorridente baleia, que eu gostava de recortar e guardar no bagunçado gavetão do meu quarto, antes de trocá-los por fotos de galãs que me arrancavam prolongados suspiros.

A Sears chegou ao Brasil em 1949, quando minha mãe tinha 4 anos e eu não era nem rascunho de vida, mas se tornou palco de inúmeras histórias nossas, já que morávamos perto e tudo era desculpa para darmos uma passadinha ali, e esse tudo pode ser perfeitamente substituído por “eu abria o berreiro”. Lá era um mundo cheio de sonhos que eu podia percorrer com todo o estoque de tagarelice que eu não gastava com outras crianças porque era extremamente tímida, mas minha mãe era a cúmplice perfeita, mesmo insistindo um pouco demais na fala “Não, nós não vamos comprar isso”.

Mas é engraçado o fato de como eu tentava, de certa forma, montar ali uma imagem do que eu seria no futuro: vestidos, salto alto, maquiagem, penhoar, tudo diametralmente oposto à simplicidade pela qual minha mãe sempre optara e também ao estilo que eu acabei adotando depois de anos e anos tentando, sem sucesso algum, ser o que eu planejara entre aquelas araras e manequins. Creio que passamos por fases em que queremos ser como nossas mães, e outras em que queremos ser tudo, menos nossas mães, e então o tempo e as experiências é que tomam as rédeas de todo o processo e nos tornam individuais.

Um pouco antes da Sears fechar, eu já longe de ser uma criança, caminhávamos olhando as ofertas finais e conversávamos distraidamente, tão distraidamente que eu subi pela escada rolante e ela ficou no andar de baixo, aumentando o tom de voz para que eu não perdesse uma só palavra. Nem eu nem o resto das pessoas que estavam na loja. E então, rimos. Num primeiro momento porque a situação foi engraçada, e num segundo, para disfarçar a sensação esquisita de que um dia nos separaríamos de verdade.

Sei que carrego minha mãe em muitos trejeitos, pudores, manias, em tanta coisa que eu vivia criticando por não ter nem ideia do que significava amadurecer a ponto de aceitar as escolhas que ela fez ao invés de impor as minhas como verdades absolutas. Ela jamais seria a mãe que eu idealizava, mas foi, e ainda é, a melhor que conseguiu. E isso está longe de ser pouco. Isso está presente em uma única linha de whatsapp que ela manda com um emoji triste (que ela sempre confunde com aquele que gargalha e lhe saltam lágrimas dos olhos) e o texto “Só falta um Selfridge e eu não quero que acabe!”. Nem eu, mãe.

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