A bonecona

Por Adriana Brunstein

Entre as inúmeras características que herdei da minha mãe, sejam elas físicas, genéticas e até mesmo gestuais, a falta de habilidade com trabalhos manuais é uma que se destaca. Somos ambas péssimas, mas eu consigo ser ainda pior. Só me arrisquei uma vez na vida a fazer umas pulseirinhas de linha que viraram moda em algum momento dos anos 80, trançadas sobre um pedaço de madeira com pequenos pregos. Minha irmã, dois anos mais nova que eu e que, ao contrário de mim, já nasceu empreendedora, conseguiu até comercializá-las na escola. Todo dia ela vinha com a lista de encomendas e lá ia eu à labuta por horas – literalmente –  a fio!

Mas, bem antes disso, no tempo em que por aqui só tinha a Susi da Estrela e a Barbie era um sonho futurista, minha mãe resolveu fazer uma boneca para mim. Uma boneca de feltro cor de rosa e cabelos de lã vermelha, divididos ao meio e presos como maria chiquinha. Diferente do abrir a caixa e já dar de cara com uma boneca pronta, vestida e arrumada, aquele foi um processo cheio de ansiedade, de esperar a hora de dormir para me deitar na cama e pedir a ela que me mostrasse como estava ficando a boneca.

E a verdade é que a boneca era esquisitíssima, tinha um tronco que se resumia a um retângulo recheado, pernas compridas demais e braços que mais pareciam remos de barco. O rosto tinha dois olhos costurados com o resto de lã do cabelo e um traço que se fingia de boca. Hoje brinco com minha mãe que a bonecona (não havia outro nome que lhe coubesse!) era mais assustadora que a Annabelle do filme de terror.  Mas isso não importava. Em todo o processo que descrevi acima, o que aconteceu de verdade foi a concretização diária de um vínculo entre nós duas, que talvez não ficasse tão claro em nossos tímidos abraços. Minha mãe nunca fora adepta de demonstrações efusivas e calorosas de afeto, creio que em grande parte pela timidez que ainda a caracteriza.

Há uma beleza infinita nas coisas aparentemente simples, e um dia aprendemos a traduzi-las e então as guardamos naquele compartimento todo especial da memória que nem o tempo tem força para apagar. Lembro-me que em um aniversário ou alguma outra ocasião ganhei de um parente uma boneca também de tecido. Linda, delicada, vestida com primor e com um rostinho perfeitamente desenhado. Não chegava aos pés da minha bonecona.

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